Rambo – Programado para Matar (1982) vai além das explosões, a prova é o diálogo entre Rambo e Coronel Trautman
Quando se fala em Rambo – Programado para Matar, é inevitável lembrar das perseguições, das armas, das explosões e da imagem de Sylvester Stallone como um dos grandes símbolos do cinema de ação dos anos 1980. No entanto, reduzir o filme a esses elementos significa ignorar justamente aquilo que o tornou tão diferente de boa parte das produções do gênero naquela época. Antes de se transformar em uma máquina de guerra nas continuações, John Rambo era um homem profundamente marcado pelo conflito que havia deixado para trás.
Lançado em 1982 e dirigido por Ted Kotcheff, o filme acompanha um veterano da Guerra do Vietnã que retorna aos Estados Unidos tentando apenas encontrar um antigo companheiro de combate. Ao chegar à pequena cidade de Hope, Rambo descobre que o amigo morreu de câncer. A partir daí, uma abordagem policial transforma uma situação aparentemente banal em uma perseguição que rapidamente sai do controle.
O mais interessante é que Rambo não chega à cidade procurando uma briga. Ele não está atrás de vingança e tampouco pretende iniciar uma guerra. O personagem está simplesmente tentando seguir seu caminho. É nesse ponto que Rambo – Programado para Matar se distancia do tradicional filme de ação.
Por isso, o encontro entre Rambo e o Coronel Samuel Trautman, interpretado por Richard Crenna, é tão importante. Depois de passar boa parte do filme praticamente em silêncio, Rambo finalmente coloca em palavras aquilo que estava escondido por trás de sua postura de soldado.
Quem é Rambo?
John Rambo é um veterano das Forças Especiais que participou da Guerra do Vietnã. Durante o conflito, recebeu um treinamento que o transformou em um soldado extremamente eficiente. Esse treinamento, porém, tinha uma finalidade muito específica: fazer com que Rambo sobrevivesse em uma guerra. O problema começa quando a guerra termina e ninguém explica ao soldado como voltar a ser uma pessoa comum.
A chegada a Hope representa esse choque. Rambo tenta simplesmente atravessar a cidade, mas é tratado como alguém indesejado pelo xerife Will Teasle. A situação se transforma em uma perseguição e, quando Rambo foge para as montanhas, ele volta a fazer aquilo que sabe fazer melhor: sobreviver.
É uma das ironias mais fortes do filme. Rambo foi treinado para combater inimigos estrangeiros, mas acaba sendo perseguido dentro dos Estados Unidos pelas próprias autoridades.
Por isso, Rambo é muito mais interessante quando observado como personagem do que como simples herói de ação. Ele não representa apenas força física ou habilidade militar. Representa também a dificuldade de retornar à vida civil depois de experimentar uma realidade que muda completamente a maneira como uma pessoa enxerga o mundo.
A atuação de Stallone e Richard Crenna
Sylvester Stallone constrói Rambo a partir do silêncio. Durante boa parte do filme, o personagem fala pouco e deixa que seu corpo revele aquilo que não consegue expressar em palavras. A postura, o olhar e a maneira como se movimenta comunicam uma tensão permanente, como se ele estivesse sempre esperando que alguma coisa desse errado.
É por isso que a cena final entre Rambo e Trautman possui tanta força. Stallone abandona a linguagem corporal do soldado e permite que o personagem finalmente desmorone. A voz muda, as lembranças aparecem e a raiva começa a se misturar com tristeza. Durante alguns minutos, desaparece o Rambo que passou o filme inteiro fugindo e lutando. Surge apenas um homem que não sabe mais como lidar com aquilo que carrega.
Richard Crenna tem um papel fundamental nesse momento. O Coronel Samuel Trautman não é simplesmente o comandante enviado para convencer Rambo a se render. Ele é uma das poucas pessoas que conhecem aquele homem antes de ele se transformar na figura que estamos acompanhando durante o filme. Foi Trautman quem o recrutou, quem participou de sua formação e quem sabe exatamente o tipo de soldado que existe por trás daquele comportamento.
Essa relação dá outra dimensão ao encontro entre os dois. Trautman não está diante de um criminoso qualquer. Ele está diante de um soldado que ajudou a criar e que agora precisa ser convencido de que a guerra terminou. O problema é que, para Rambo, ela nunca terminou de verdade.
Crenna interpreta Trautman com uma combinação interessante de autoridade e preocupação. Existe uma relação militar entre os dois, mas também existe algo próximo de uma relação paternal. Trautman conhece a capacidade de Rambo, mas também percebe que aquela capacidade tem um preço. Ele entende que o homem que ajudou a transformar em soldado agora precisa aprender a existir fora do campo de batalha.
DIÁLOGO ENTRE RAMBO E CORONEL TRAUTMAN

Coronel Samuel Trautman: Acabou Johnny. Acabou.
Rambo: Nada acabou senhor, nada. Não se consegue parar. A guerra não era minha. Você me chamou, eu não pedi pra ir. Fiz o que tinha que fazer , mas não deixaram a gente ganhar.
Eu volto para o mundo é vejo aqueles idiotas no aeroporto, protestando e me chamando de assassino de bebes e todo tipo de besteira. Quem são eles para protestarem contra mim? Quem são eles? Se tivessem na minha pele, pelo menos saberiam porque estavam gritando.
Coronel Samuel Trautman: Foi uma época ruim, Rambo. Pertence ao passado agora.
Rambo: Para você. Para mim a vida civil não é nada. No campo temos um código de honra. Você cuida de mim, eu cuido de você. Aqui não tem nada.
Coronel Samuel Trautman: Você é o último de um grupo de elite. Não acabe com tudo assim.
Rambo: Na guerra eu pilotava avião, dirigia tanques e usava equipamentos de milhões. Aqui eu não arrumo emprego nem como manobrista.
O que é isso? Jesus! Meu Deus! Onde está todo mundo. Os caras. Eles eram meus amigos. Eu gostava deles. Eu tinha amigos. Aqui eu não tenho nada.
Lembra da nossa equipe no Vietnã? Eu peguei uma daquelas coisas mágicas é disse: “Joey,achei”. E eu a envie para Las Vegas. Falávamos sempre de Las Vegas e de um carro. Um Chevy 58, vermelho, ele sempre falava do carro. Ele dizia que íamos rodar até os pneus furarem…
Havia um celeiro e um garoto se aproximou. Ele estava com uma caixa de engraxate e perguntou: “Vai graxa aí? Por favor”. Eu disse: não. Ele perguntou de novo , e o Joey disse “sim”. Então eu fui buscar uma cerveja. Era uma armadilha, a caixa explodiu e espalhou o corpo dele por todo o lugar…
Ele ficou lá gritando feito um louco, e os pedaços dele estavam em cima de min. Eu tive que empurrá-lo. Meu amigo estava espalhado em cima de min, tinha sangue por todo lado e eu tentava mantê-lo vivo…
Tentava juntar as partes dele, mas as tripas estavam saindo e ninguém podia ajudar.
Ele dizia: “Eu quero ir pra casa”. Ele ficava repetindo isso. “Eu quero ir para casa”. “Eu quero dirigir o meu Chevy”. Ninguém conseguiu encontrar as pernas dele…
Eu não encontrei as pernas dele. Isso não sai da minha cabeça. Foi há mais de sete anos. E todos os dias eu penso nisso. Eu não converso com ninguém.Nenhum dia, nenhuma semana. Eu não tiro isso da minha cabeça.
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O significado do diálogo
O diálogo entre Rambo e Trautman é o momento em que Rambo revela aquilo que estava escondido por trás de toda a ação. Durante o filme, acompanhamos um homem sendo perseguido, cercado e obrigado a utilizar novamente as habilidades que aprendeu durante a guerra. Na conversa com seu antigo comandante, porém, entendemos que o verdadeiro conflito não está acontecendo apenas entre Rambo e a polícia. O conflito está dentro dele.
Essa diferença entre o que aconteceu no mundo exterior e aquilo que acontece dentro de Rambo é essencial para compreender o personagem. Para quem observa de fora, o conflito pertence ao passado. Para ele, o passado continua acontecendo no presente. E é nesse momento que o filme deixa claro que Rambo não está simplesmente revoltado com o tratamento recebido em Hope. O que estamos vendo é um homem que perdeu a capacidade de se adaptar a uma vida que não reconhece mais como sua.
Essa solidão explica boa parte de seu comportamento. Ele não tem mais seus companheiros de combate. Não tem uma missão. Não possui uma profissão que aproveite aquilo que aprendeu durante anos. E, principalmente, não encontra compreensão por parte das pessoas que deveriam ajudá-lo a reconstruir sua vida.
A lembrança de seus companheiros torna essa situação ainda mais dolorosa. Rambo não está apenas sofrendo por aquilo que viveu durante a guerra, mas também pelo fato de que muitos daqueles que compartilharam a experiência com ele não estão mais ali. O passado se transforma em um lugar ao qual ele consegue retornar apenas através da memória.
É nesse ponto que o filme ganha uma dimensão humana que muitas vezes é esquecida quando lembramos de Rambo apenas pelas continuações. O personagem não quer ser uma máquina de guerra. Ele foi transformado em uma e agora não sabe como desligá-la.
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Fonte: Bluray Rambo – Programado para Matar, IMDB


Perfeita representação do sentimento pós guerra vietnã. A frustração dos civis norte americanos destacada no fracasso dos soldados, cujo retorno, sem perspectiva e repleto de traumas, exigindo o mínimo de reconhecimento pela pátria, a qual dedicou a própria vida.