Antes de descobrir o que era a Matrix, Neo precisou escolher entre continuar acreditando na realidade que conhecia ou descobrir uma verdade capaz de mudar tudo o que entendia sobre o mundo.
Poucos filmes conseguiram transformar uma pergunta filosófica sobre a realidade em uma das cenas mais reconhecíveis da história do cinema como Matrix (1999). Dirigido pelas irmãs Wachowski, o filme começa acompanhando Thomas Anderson, um programador que leva uma vida aparentemente comum, mas que sente que existe algo errado com o mundo ao seu redor.
Conhecido no universo virtual como Neo, ele passa a investigar essa sensação até ser conduzido ao encontro de Morfeu, um homem misterioso que parece saber exatamente o que está acontecendo. A conversa entre os dois acontece em um momento decisivo da história. Pela primeira vez, Neo encontra alguém capaz de dar um nome àquilo que sempre sentiu, mas nunca conseguiu explicar. Morfeu, porém, não entrega todas as respostas. Em vez disso, apresenta ao jovem uma escolha.
É nesse momento que surge uma das imagens mais famosas de Matrix: a pílula azul e a pílula vermelha. A escolha parece simples, mas representa algo muito maior. De um lado, está a possibilidade de continuar vivendo dentro da realidade que Neo conhece. Do outro, está a chance de descobrir a verdade, mesmo que ela seja dolorosa e destrua tudo aquilo em que ele acreditava.
Por isso, o diálogo entre Neo e Morfeu não funciona apenas como uma explicação para a trama. Ele estabelece a principal questão filosófica do filme: o que estamos dispostos a perder para descobrir a verdade? Antes de entrar na toca do coelho, Neo precisa tomar uma decisão. E, ao escolher a pílula vermelha, não está apenas escolhendo conhecer a Matrix. Ele está escolhendo nunca mais enxergar o mundo da mesma maneira.
Quem é Morfeu?
Morfeu é um dos personagens centrais de Matrix e, para Neo, representa muito mais do que o homem que conhece a verdade sobre aquele mundo. Ele é o mentor que conduz o protagonista até uma realidade que ele ainda não consegue compreender. Interpretado por Laurence Fishburne, Morfeu é apresentado como alguém que já descobriu aquilo que Neo apenas começa a suspeitar: o mundo em que a maioria das pessoas vive não é exatamente aquilo que parece.
Ele conhece a Matrix, conhece seus mecanismos e, principalmente, sabe que a verdade pode ser difícil de aceitar. É por isso que Morfeu não trata Neo como alguém que precisa simplesmente receber uma explicação. Ele entende que certas verdades não podem ser ensinadas. Precisam ser experimentadas. Essa característica aparece de maneira muito clara durante o encontro dos dois.
Morfeu poderia simplesmente contar a Neo o que é a Matrix. Poderia explicar como ela funciona, quem são as máquinas e por que aquele jovem foi escolhido. Mas ele sabe que isso não seria suficiente. Neo precisa ver por si mesmo. É justamente por isso que a conversa termina com a escolha entre as duas pílulas. Morfeu não decide pelo rapaz. Ele apresenta as possibilidades e deixa que Neo escolha o caminho que deseja seguir.
Existe uma relação interessante entre o nome do personagem e sua função na história. Na mitologia grega, Morfeu é associado aos sonhos. Em Matrix, o personagem também funciona como alguém que ajuda Neo a acordar de um mundo que parecia real. Mas talvez sua principal função seja outra.
A atuação de Laurence Fishburne
Laurence Fishburne constrói Morfeu a partir de uma característica que parece simples, mas é fundamental para a cena: ele transmite a sensação de que sabe exatamente o que está fazendo. Desde os primeiros segundos do encontro com Neo, Morfeu não demonstra pressa. Ele fala com tranquilidade, escolhe cuidadosamente as palavras e deixa que os silêncios façam parte da conversa. Fishburne entende que Morfeu não precisa parecer ameaçador. Ele precisa parecer confiável.
Quando Morfeu pergunta a Neo se ele acredita em destino, por exemplo, a pergunta parece simples. Mas o ator transmite a sensação de que existe muito mais por trás dela. Ele está tentando entender o homem sentado à sua frente antes de conduzi-lo para uma decisão que não poderá ser desfeita.
Fishburne não transforma o discurso em uma grande explosão emocional. Pelo contrário. Quanto mais absurda parece a revelação, mais controlada permanece sua interpretação. É justamente essa calma que dá peso às palavras. A famosa explicação sobre a Matrix funciona porque Morfeu não parece estar tentando convencer Neo de uma teoria. Ele fala como alguém que simplesmente está descrevendo uma realidade que conhece.
É uma atuação construída muito mais pela presença do que pelo excesso. E talvez seja justamente essa a razão de Morfeu ter se tornado um dos personagens mais marcantes de Matrix. Laurence Fishburne consegue fazer com que cada palavra pareça carregada de significado, como se o personagem soubesse que aquela conversa não está mudando apenas a vida de Neo.Está prestes a mudar a maneira como ele enxerga o mundo.
O discurso entre Morfeu e neo

Morfeu: Finalmente. Bem-Vindo, Neo. Como você deve ter adivinhado eu sou Morfeu.
Neo: É uma honra conhecê-lo
Morfeu: Não… a honra é minha. Por favor, venha. Sente-se. Eu imagino que você esteja se sentindo um pouco como a Alice. Entrando pela toca do coelho.
Neo: Você tem razão.
Morfeu: Eu vejo em seus olhos. Você tem o olhar de um homem que aceita o que vê… porque está esperando acordar. Ironicamente isso não deixa de ser verdade. Você acredita em destino, Neo?
Neo: Não.
Morfeu: Por que não?
Neo: Não gosto de pensar que não controlo minha vida.
Morfeu: Sei exatamente o que quer dizer. Vou te dizer por que está aqui. Você está aqui por que sabe de algo. Não consegue explicar o que é. Mas você sente. Você sentiu a vida inteira: há algo errado com o mundo. Você não sabe o que, mas há. Como um zunido na sua cabeça… te enlouquecendo.
Foi esse sentimento que te trouxe até mim. Você sabe do que estou falando?
Neo: Da Matrix
Morfeu: Você deseja saber… o que ela é?
Neo: (balança a cabeça confirmando que sim)
Morfeu: A Matrix está em todo o lugar. À nossa volta. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olha pela janela ou quando liga sua televisão. Você sente quando vai para o trabalho… quando vai para igreja… quando paga seus impostos.
É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não visse a verdade.
Neo: Que verdade?
Morfeu: Que você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu em um cativeiro, nasceu em uma prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão para sua mente. Infelizmente é impossível dizer o que é a Matrix. Você tem que ver por si mesmo.
Está é a sua última chance. Depois não há como voltar. Se tomar a pílula azul a história acaba, e você acorda na sua cama acreditando no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho.
Neo: (olha atentamente e faz sua escolha)
Morfeu: Lembre-se… tudo o que ofereço é a verdade e nada mais.
Neo: (escolhe a pílula vermelha)
Morfeu: (Sorri enquanto Neo toma a pílula)
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O significado do discurso
O diálogo entre Morfeu e Neo funciona porque, por trás da explicação sobre a Matrix, existe uma discussão muito mais antiga: até que ponto estamos dispostos a questionar a realidade em que vivemos? Morfeu não está apenas contando a Neo que o mundo é uma simulação. Ele está colocando o personagem diante de uma escolha que envolve algo muito mais profundo: conforto ou verdade.
A pílula azul representa a possibilidade de continuar vivendo como antes. Neo poderia esquecer aquela conversa, voltar para sua cama e acreditar naquilo que sempre acreditou. Talvez nunca descobrisse a verdade, mas também não precisaria lidar com as consequências dela.
A pílula vermelha é exatamente o contrário. Ela representa a disposição de abandonar as certezas e descobrir o que existe por trás delas. E Morfeu deixa isso muito claro quando explica que, depois daquela escolha, não haveria como voltar atrás. É aqui que uma das falas mais importantes do diálogo ganha força: “Não gosto de pensar que não controlo minha vida.”
Neo acredita que rejeitar o destino significa ter controle sobre a própria existência. Mas existe uma ironia nessa ideia. Ele acredita estar no comando justamente enquanto vive dentro de uma realidade que desconhece. A Matrix, portanto, não é apenas uma prisão porque impede as pessoas de sair. Ela é uma prisão porque faz com que seus prisioneiros acreditem que são livres.
As pessoas dentro da Matrix não estão acorrentadas fisicamente. Por isso, quando Morfeu diz que a Matrix é “o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não visse a verdade”, ele está apresentando a Neo uma questão que ultrapassa a ficção científica: quantas das nossas certezas existem porque realmente escolhemos acreditar nelas, e quantas simplesmente foram colocadas diante de nós?
É por isso que aquela escolha permanece tão simbólica. Porque, muito além da ficção científica, ela representa uma das decisões mais difíceis que qualquer pessoa pode enfrentar: abrir mão de uma mentira confortável para descobrir uma verdade que talvez seja muito mais difícil de suportar.
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Fonte: Blu-ray Matrix, Imdb

