Entre trovões, espadas, cabeças decepadas e uma trilha sonora épica do Queen, Highlander – O Guerreiro Imortal se tornou um dos filmes mais marcantes dos anos 80.
- Ano: 1986
- Direção: Russell Mulcahy
- Roteiro: Gregory Widen, Peter Bellwood e Larry Ferguson
- Baseado no livro: Não. História original de Gregory Widen
- Elenco: Christopher Lambert, Sean Connery, Clancy Brown, Roxanne Hart e Beatie Edney
- Duração: 1h50min
- Gênero: Ação, aventura e fantasia
- IMDb: 7,0/10
- Oscar: Não indicado
Highlander: do fracasso de bilheteria ao status de clássico cult
Lançado em 1986, Highlander – O Guerreiro Imortal foi dirigido por Russell Mulcahy e teve roteiro original de Gregory Widen. O filme provocou reações ambíguas na época: enquanto alguns espectadores se encantaram com seu visual estilizado e sua mistura de fantasia, ação e ficção científica, outros tiveram dificuldade para compreender sua mitologia complexa.
Com um orçamento estimado em US$ 19 milhões, Highlander arrecadou cerca de US$ 12,9 milhões mundialmente, tornando-se um dos fracassos de bilheteria daquele período. O resultado foi ainda mais decepcionante por acontecer em um momento em que os cinemas eram dominados por grandes sucessos dos anos 80, como Top Gun e Aliens.
Mas o tempo trataria de mudar essa história. Aos poucos, Highlander conquistou uma legião de fãs e se transformou em uma referência da cultura pop, impulsionado por seu visual singular, pela trilha sonora marcante do Queen e por uma frase que atravessaria gerações: “Só pode haver um.”
A ETERNIDADE TEM UM PREÇO
O filme apresenta Connor MacLeod (Christopher Lambert), um guerreiro escocês do século XVI que descobre ser imortal após sobreviver a uma ferida fatal em batalha. Expulso de sua aldeia por ser considerado amaldiçoado, Connor é treinado por Ramírez (Sean Connery), outro imortal que o ensina sobre a origem e o propósito de sua condição.
Os imortais vivem espalhados pelo mundo, esperando o momento do “Encontro”, um confronto final onde “só pode haver um”. A cada duelo, quando um imortal derrota outro, ele absorve a energia e o conhecimento de seu oponente, um fenômeno conhecido como “O Prêmio”.
Mas à medida que os séculos passam, Connor precisa enfrentar o temível Kurgan (Clancy Brown), um guerreiro brutal determinado a conquistar o poder absoluto. É uma batalha que mistura passado e presente, conduzindo o espectador de campos medievais à Nova York dos anos 80.
Cronologia dos Eventos de highlander
- 1518 (Nascimento): Connor MacLeod nasce nas Terras Altas (Highlands) da Escócia.
- 1536 (A “Morte” e a Imortalidade): Connor é ferido mortalmente pelo imortal Kurgan em uma batalha, mas sobrevive, o que leva sua aldeia a acusá-lo de bruxaria e bani-lo.
- 1541 (Treinamento): Juan Sánchez Villa-Lobos Ramirez (Sean Connery) encontra Connor e o treina, explicando que eles são imortais e só morrem por decapitação.
- Séculos XVI – XX (O Exílio e a Guerra): Connor vive séculos, perde sua esposa Heather (que envelhece e morre) e enfrenta outros imortais, acumulando poder (“The Quickening”).
- 1985 (A “Reunião” – Nova York): Connor vive como o antiquário Russell Nash. Os imortais restantes se reúnem para a batalha final, onde o vencedor ganha “O Prêmio” (poder ilimitado).
- Clímax: Connor decapita Kurgan, tornando-se o último imortal e recebendo a capacidade de sentir os pensamentos de todos os homens.
LAMBERT, CONNERY E O MITO

A química entre Christopher Lambert e Sean Connery é um dos grandes trunfos de Highlander (1986). No papel de Ramírez, Connery injeta humor, carisma e uma nobreza quase mítica à narrativa, funcionando como o mentor clássico que guia o protagonista não apenas no combate, mas também na compreensão do fardo da imortalidade. Sua presença ajuda a equilibrar o tom épico e filosófico do filme, tornando os conceitos mais acessíveis ao público.
Lambert, por sua vez, constrói um Connor MacLeod melancólico e introspectivo, um herói marcado pela solidão e pela impossibilidade de envelhecer ao lado de quem ama. Diferente dos protagonistas de ação típicos dos anos 80, MacLeod carrega um peso emocional constante, refletido em sua postura contida e olhar distante.
Nos bastidores, essa dinâmica ganha contornos curiosos. Sean Connery gravou todas as suas cenas em apenas sete dias, recebendo um cachê milionário, um investimento que se justifica pelo impacto duradouro do personagem.
Já Christopher Lambert, que mal falava inglês na época das filmagens, transformou a limitação em recurso criativo: o sotaque peculiar de MacLeod nasceu como uma mistura intencional de diferentes idiomas, reforçando a ideia de um homem que atravessou séculos e viveu em diversas partes do mundo.
Kurgan: a personificação do lado sombrio da imortalidade

O vilão Kurgan, interpretado por Clancy Brown, é mais do que um simples antagonista, o personagem representa o lado mais sombrio da imortalidade, aquele que atravessa séculos sem empatia, moral ou propósito além da destruição.
A atuação de Clancy Brown é marcada por um exagero calculado, que mistura brutalidade física, sarcasmo e uma presença ameaçadora constante. Essa escolha dá ao Kurgan uma aura quase mítica, fazendo com que cada aparição em cena carregue tensão e imprevisibilidade.
Visualmente, o Kurgan também se destaca dentro do cinema dos anos 80. Seu figurino com influências punk, o olhar enlouquecido e a postura predatória ajudam a reforçar a ideia de um imortal que perdeu qualquer vínculo com a humanidade. Diferente de outros vilões da época, o Kurgan não possui motivações complexas ou conflitos internos: ele é movido exclusivamente pela sede de poder e pelo desejo de vencer o Jogo.
Essa oposição direta entre o Kurgan e Connor MacLeod fortalece o subtexto filosófico de Highlander. Enquanto o protagonista busca sentido, amor e identidade ao longo dos séculos, o vilão mostra que a imortalidade também pode amplificar o pior lado do ser humano.
Heather, o primeiro grande amor de Connor MACLEOD

Beatie Edney interpreta Heather, o primeiro grande amor de Connor MacLeod e o símbolo mais puro de sua ligação com a vida mortal. Ambientada na Escócia do século XVI, Heather surge no momento em que Connor ainda tenta compreender sua própria natureza, antes mesmo de aceitar plenamente o peso da imortalidade revelada durante seu treinamento com Ramirez (Sean Connery).
Enquanto Connor aprende com Ramirez a lutar, a sobreviver e a entender as regras do mundo dos imortais, é Heather quem o ancora à humanidade. O contraste entre o rigor do treinamento e a simplicidade do amor que ele vive com Heather reforça o conflito central do personagem. Seu relacionamento é marcado por ternura, silêncio e inevitável tragédia: enquanto Connor permanece jovem, Heather envelhece diante de seus olhos.
Essa passagem é uma das mais emocionais do filme e introduz, de forma devastadora, o verdadeiro custo da imortalidade. Mais do que uma história de amor, Heather representa tudo aquilo que Connor jamais poderá manter: o tempo compartilhado, o envelhecer juntos e a promessa de uma vida comum.
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Rachel Ellenstein: a amizade que atravessa o tempo

Interpretada por Sheila Gish (versão adulta), Rachel Ellenstein é uma das personagens mais discretas e, ao mesmo tempo, mais emocionais de Highlander. Introduzida ainda criança, Rachel entra na vida de Connor MacLeod em um momento decisivo: após a perda de Heather, ela representa uma nova forma de conexão humana, não baseada no romance, mas na amizade e no cuidado.
Filha de um livreiro judeu durante a Segunda Guerra Mundial, Rachel conhece Connor quando ele ainda tenta se adaptar à solidão imposta pela imortalidade. Ao longo dos anos, ela cresce enquanto Connor permanece o mesmo, e essa passagem do tempo, vista através de seus olhos, reforça novamente o tema central do filme: a impossibilidade de envelhecer ao lado daqueles que se ama.
A relação entre Connor e Rachel é marcada por afeto silencioso e respeito mútuo. Ele se torna uma figura protetora em sua vida, enquanto ela aceita sua natureza sem questionamentos, oferecendo algo raro no mundo dos imortais: lealdade sem medo e amizade sem cobrança. Rachel não exige explicações, apenas permanece.
Brenda Wyatt: a ciência diante do impossível

Brenda Wyatt, interpretada por Roxanne Hart, funciona como o elo entre o mundo racional e o universo mítico de Highlander. Patologista forense e mulher de mente analítica, Brenda representa a ciência tentando decifrar o inexplicável.
Brenda entra na história ao investigar uma série de mortes misteriosas em Nova York, todas marcadas por um padrão que desafia qualquer explicação lógica. Ao cruzar o caminho de Connor MacLeod, ela passa de observadora cética a peça fundamental na compreensão da natureza dos imortais. Diferente de Heather, que vive o drama do tempo, Brenda vive o choque da revelação: aceitar que o homem que ama não pertence ao fluxo normal da vida.
A atuação de Roxanne Hart traz solidez e sensibilidade à personagem. Brenda não é apenas um interesse romântico, mas uma mulher ativa, inteligente e curiosa, que questiona, confronta e tenta compreender o mundo ao seu redor.
Brenda Wyatt também simboliza a possibilidade de escolha. Ao contrário de Heather, cuja tragédia está ligada à passagem inevitável do tempo, Brenda encara o dilema da imortalidade de forma consciente: amar alguém condenado a sobreviver a tudo e a todos.
UMA TRILHA IMORTAL
Poucos elementos de Highlander – O Guerreiro Imortal envelheceram tão bem quanto sua trilha sonora. E boa parte desse legado tem nome: Queen. A banda de Freddie Mercury ajudou a transformar a atmosfera do filme em algo ainda maior, com canções como “Who Wants to Live Forever” e “Princes of the Universe”, que acabaram se tornando praticamente inseparáveis da história de Connor MacLeod.
“Who Wants to Live Forever” traduz perfeitamente o lado mais trágico da imortalidade. Enquanto Connor atravessa séculos vendo pessoas que ama envelhecerem e morrerem, a voz de Freddie Mercury transforma essa dor em uma espécie de lamento épico. Já “Princes of the Universe” assume o outro lado da história: grandiosa, energética e quase operística, funciona como um verdadeiro hino para os guerreiros imortais.
As canções compostas e selecionadas para o filme acabaram integrando A Kind of Magic, álbum lançado pelo Queen em 1986. O resultado foi uma combinação rara entre cinema e música, em que a trilha não apenas acompanha as imagens, mas ajuda a construir a identidade da obra.
É difícil imaginar Highlander sem o Queen. As guitarras, os vocais e a grandiosidade das canções ajudaram a transformar uma história sobre guerreiros que atravessam os séculos em algo trágico, romântico e épico. E talvez nenhum momento represente melhor essa união entre filme e música do que “Who Wants to Live Forever”.
O LEGADO DOS IMORTAIS
Dirigido por Russell Mulcahy, que vinha do universo dos videoclipes, o filme é visualmente arrebatador. Os ângulos ousados, os cortes rápidos e o uso de iluminação neon transformam Highlander em uma verdadeira pintura em movimento. Mesmo com orçamento limitado, Mulcahy criou um mundo visual que parecia maior que a própria tela. E é isso que o torna atemporal a capacidade de ser ao mesmo tempo épico e íntimo, brutal e poético.
Embora não tenha sido um sucesso imediato de bilheteria, Highlander conquistou status de cult nos anos seguintes. Gerou continuações, uma série de TV de enorme sucesso nos anos 90 (Highlander: The Series), animações, quadrinhos e até videogames.
A frase “There can be only one” (“Só pode haver um”) se tornou uma das mais icônicas do cinema, repetida por fãs do mundo todo.
POR QUE ASSISTIR HIGHLANDER HOJE?

Rever Highlander – O Guerreiro Imortal é voltar a uma época em que Hollywood ainda se permitia apostar em ideias estranhas, ambiciosas e difíceis de classificar. O filme mistura ação, fantasia, romance, ficção científica e música de uma maneira que talvez pareça improvável hoje e é justamente essa combinação que faz sua identidade permanecer tão forte.
É verdade que alguns efeitos visuais denunciam os quase 40 anos de idade da produção. Mas há coisas que o tempo não conseguiu envelhecer: a história de Connor MacLeod, os duelos, a presença de Christopher Lambert, a intensidade de Sean Connery e, principalmente, a trilha sonora do Queen. Quando os primeiros acordes de Who Wants to Live Forever surgem, o filme deixa de ser apenas uma aventura de imortais e ganha uma dimensão emocional que permanece poderosa.
Em uma época dominada por reboots, remakes e universos compartilhados, Highlander também funciona como um lembrete de que uma ideia original não precisa nascer perfeita para se tornar inesquecível. Às vezes, basta ter personalidade, coragem e algo que nenhum efeito especial consegue fabricar: identidade.
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Fonte: IMDB

