Dos bastidores dos animatrônicos à criação da classificação PG-13, descubra as histórias mais curiosas por trás de um dos maiores clássicos dos anos 80.
Sobre o filme:
- Ano: 1984
- Direção: Joe Dante
- IMDb: 7,3/10
- Elenco: Zach Galligan, Phoebe Cates, Hoyt Axton, Frances Lee McCain, Corey Feldman, Dick Miller, Polly Holliday e Judge Reinhold.
- Oscar: Não recebeu indicações ao Oscar.
- Duração: 1h46min
- Gênero: Comédia, fantasia, terror e humor negro.
Gremlins parecia, à primeira vista, apenas uma divertida história sobre um garoto que ganha uma criatura misteriosa de Natal. Mas o filme dirigido por Joe Dante e produzido por Steven Spielberg era muito mais estranho do que isso. Misturando comédia, terror, fantasia e efeitos práticos, a produção criou um dos conceitos mais originais do cinema dos anos 80 e transformou Gizmo e seus pequenos monstros em personagens inesquecíveis.
Lançado em 1984, Gremlins também ajudou a mudar Hollywood. O filme enfrentou limitações técnicas, passou por mudanças importantes durante a produção e chegou a provocar debates sobre violência em filmes voltados para o público jovem. O impacto foi tão grande que a produção, junto com Indiana Jones e o Templo da Perdição, contribuiu para a criação da classificação PG-13 nos Estados Unidos.
Por trás das criaturas, porém, existe uma coleção de histórias ainda mais curiosas: ideias que foram abandonadas, diferentes versões de Gizmo, decisões de Steven Spielberg que mudaram o roteiro, animatrônicos extremamente caros e até uma inspiração bastante inesperada para a criação dos Gremlins.
Então, antes de seguir as três regras dos Mogwais: não molhar, evitar luz forte e nunca alimentar depois da meia-noite, prepare-se para descobrir algumas das histórias mais interessantes por trás de Gremlins.
Gremlins quase foi um filme de terror muito mais sombrio

No roteiro original de Gremlins (1984), Gizmo e Stripe seriam a mesma criatura, representando duas fases do mesmo personagem. A ideia inicial previa que o simpático Mogwai acabaria se transformando no vilão da história. No entanto, Steven Spielberg discordou dessa abordagem e defendeu que o público precisava de um “herói fofo”, alguém com quem fosse possível criar empatia emocional.
Com isso, Spielberg decidiu manter Gizmo como o lado bom da história, separado de Stripe, o Gremlin mais cruel e caótico do filme. Segundo o diretor Joe Dante, essa escolha criativa foi fundamental para que Gremlins se tornasse um clássico cult dos anos 80, lembrado até hoje com carinho por diferentes gerações.
Inicialmente, o pequeno Mogwai realmente se transformaria em Gremlin, mas a insistência de Spielberg em preservar sua aparência adorável do início ao fim mudou completamente o tom do filme e ajudou a consolidar Gizmo como um dos personagens mais icônicos do cinema.
A decisão de Steven Spielberg que definiu o sucesso

O Gremlins que chegou aos cinemas em 1984 poderia ter sido um filme muito mais sombrio. No roteiro original escrito por Chris Columbus, os Gremlins eram criaturas mais violentas e cruéis, e algumas cenas previstas para a história dificilmente combinariam com o tom de comédia e fantasia que acabou conquistando o público.
Entre as ideias mais extremas estava a morte do cachorro da família, além de uma sequência em que a mãe de Billy era decapitada. O roteiro também apresentava os Gremlins como uma ameaça muito mais assustadora, com menos espaço para o humor que posteriormente se tornou uma das principais características do filme. A mudança aconteceu quando a produção começou a buscar um equilíbrio entre terror, comédia e fantasia.
Steven Spielberg e o estúdio perceberam que havia potencial para transformar a ideia em algo acessível a um público muito maior sem abandonar completamente o aspecto assustador das criaturas. Foi justamente essa combinação que ajudou a tornar Gremlins tão diferente de outros filmes da época. O filme que conhecemos hoje nasceu, em parte, da decisão de transformar uma história de terror quase puro em uma aventura de humor negro que pudesse alcançar toda uma nova geração.
Os desafios técnicos e truques de efeitos especiais

Durante a produção os cineastas estavam literalmente explorando os limites da tecnologia de efeitos especiais da época. A movimentação de personagens como Gizmo ainda era extremamente limitada, o que explica por que o Mogwai quase não corre nem dança no primeiro filme.
Uma curiosidade importante envolve a famosa regra do filme: “nada de luzes fortes”. Além de funcionar narrativamente, essa limitação tinha um motivo técnico bem claro. Em 1984, Joe Dante, a Amblin Entertainment e a equipe de efeitos especiais ainda não conseguiam resultados convincentes com os animatrônicos sob iluminação intensa. Manter os Gremlins no escuro ajudava a disfarçar imperfeições um truque clássico da ficção científica, usado desde os primórdios do gênero.
O período foi marcado por muita experimentação nos bastidores de Gremlins. O artista de efeitos Chris Walas sugeriu abandonar a ideia inicial de animação em stop-motion e apostar no uso de marionetes animatrônicas, solução que acabou definindo a identidade visual do filme.
Nem todas as ideias deram certo. Em uma tentativa alternativa, o estúdio chegou a sugerir o uso de um macaco-aranha fantasiado de Gremlin. O teste aconteceu no escritório de Joe Dante e terminou em desastre: o animal entrou em pânico, destruiu o ambiente e fez sujeira por todo o local, encerrando de vez a proposta.
Joe Dante e o caminho improvável até a direção de Gremlins

Quando Joe Dante foi contratado para dirigir Gremlins (1984), sua situação financeira estava longe de ser confortável. Após o sucesso de Grito de Horror (1981), o diretor passou cerca de um ano desenvolvendo um novo projeto para a AVCO Embassy Pictures, o mesmo estúdio responsável por seu filme anterior.
No entanto, os planos mudaram drasticamente. A AVCO Embassy Pictures foi vendida, e o longa que Dante vinha desenvolvendo acabou cancelado antes de sair do papel. Pior: Joe Dante não recebeu nenhum pagamento pelo tempo investido no projeto, ficando literalmente sem trabalho após o encerramento da produção.
Foi nesse momento delicado da carreira que surgiu a virada inesperada. Quando o roteiro de Gremlins, produzido por Steven Spielberg, chegou até suas mãos, Dante acreditou inicialmente que havia ocorrido um engano. Convencido de que o material havia sido enviado para o endereço errado, ele mal podia imaginar que aquele roteiro mudaria sua trajetória profissional.
A parceria com Steven Spielberg e a Amblin Entertainment não apenas salvou o momento difícil da carreira de Joe Dante, como também deu origem a um dos maiores clássicos do cinema dos anos 80, consolidando seu nome na história do cinema fantástico e do terror com humor.
Corey Feldman em 1984: o ano que marcou sua estreia no terror

Gremlins (1984) foi o primeiro filme lançado em 1984 estrelado por Corey Feldman, marcando o início de uma fase decisiva em sua carreira no cinema. No mesmo ano, o ator ainda apareceria em Sexta-Feira 13 – Parte 4: O Capítulo Final (1984), consolidando sua presença em filmes de terror dos anos 80. Curiosamente, ambos os títulos pertencem ao gênero que ajudaria a transformá-lo em um dos rostos mais reconhecíveis da década.
A entrada de Corey Feldman em Gremlins aconteceu após uma mudança importante em outro clássico. Steven Spielberg decidiu retirar o personagem que Feldman interpretaria em E.T.: O Extraterrestre (1982), abrindo espaço para que o jovem ator fosse redirecionado para um novo projeto da Amblin Entertainment. Em uma coincidência curiosa, nos dois filmes Feldman interpreta o melhor amigo do garoto que se envolve com uma criatura fora do comum.
Outro detalhe interessante de bastidores ajuda a explicar a diferença de idade entre os personagens. Corey Feldman foi escalado antes de a idade de Billy Peltzer ser ajustada no roteiro, o que acabou resultando na dinâmica curiosa entre um protagonista mais velho e um amigo de apenas 13 anos.
da estreia natalina ao sucesso inesperado no verão

Gremlins (1984) foi originalmente planejado para estrear no Natal, aproveitando o clima festivo e familiar da data. No entanto, os planos mudaram rapidamente quando a Warner Bros. achou que não enfrentaria concorrência direta de dois filmes anunciados para o verão: Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984) e Os Caça-Fantasmas (1984).
Diante desse cenário estratégico, o estúdio decidiu acelerar a produção e antecipar o lançamento de Gremlins para a temporada de filmes de verão, uma decisão arriscada, mas extremamente bem-sucedida. O resultado foi um desempenho sólido de bilheteria e a consolidação do filme como um dos maiores sucessos comerciais de 1984.
Embora Os Caça-Fantasmas (1984) tenha superado Gremlins na maioria das cidades, houve uma exceção significativa: Nova York. Segundo relatos da época, o público nova-iorquino demonstrou certa resistência ao filme de Bill Murray e companhia devido aos meses de transtornos no trânsito causados pelas filmagens nas ruas da cidade.
Esse fator acabou favorecendo Gremlins, que teve desempenho superior em Nova York, um detalhe curioso e pouco lembrado nos bastidores da disputa entre os grandes blockbusters dos anos 80.
Spielberg não parava de mudar o design do Mogwai

O visual do Mogwai em Gremlins (1984) passou por inúmeras mudanças durante a produção, muito por conta de Steven Spielberg, que ajustava o design da criatura constantemente. Essas alterações frequentes acabaram irritando o estúdio de efeitos especiais liderado por Chris Walas, responsável por dar vida aos bonecos animatrônicos.
Inicialmente, Spielberg sugeriu que o Mogwai deixasse de ser totalmente marrom e adotasse uma combinação de marrom e branco, buscando torná-lo ainda mais carismático. Em outro momento, propôs orelhas sem pelos, o que exigia novas adaptações técnicas e atrasos no processo de criação.
Curiosamente, durante a exibição de uma versão inicial de Gremlins para o estúdio, uma das observações feitas aos diretores foi de que havia“Gremlins demais” em cena. Em tom de brincadeira, Steven Spielberg sugeriu então cortar todos eles e renomear o filme para “Pessoas”.
Animatrônicos caríssimos e “revista diária”

Para dar vida a Gizmo, a produção utilizou cerca de 30 modelos diferentes do personagem, cada um desenvolvido para atender a necessidades específicas de cena. Esses bonecos animatrônicos de Gizmo contavam com múltiplas expressões faciais, criadas especialmente para funcionar em conjunto com os complexos mecanismos internos da cabeça.
Cada expressão foi projetada para permitir que a boca do Mogwai se movesse de forma natural, sincronizada com diálogos e reações emocionais, algo extremamente avançado para os efeitos especiais do cinema dos anos 80. O nível de detalhamento ajudou a transformar Gizmo em um dos personagens mais carismáticos e memoráveis da década.
O alto grau de sofisticação vinha acompanhado de um custo elevado. Cada animatrônico de Gizmo custava entre US$ 30 mil e US$ 40 mil, o que equivale a aproximadamente US$ 60 mil a US$ 90.500 em valores ajustados para 2024.
Por causa desses valores, ao final de cada dia de gravação, todos os carros do elenco e da equipe eram revistados, como medida de segurança para evitar qualquer tentativa de furto.
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A origem do nome Gremlin e a inspiração real por trás das criaturas

O termo “Gremlin” é um neologismo popularizado pelo escritor Roald Dahl, autor de clássicos como A Fantástica Fábrica de Chocolate. Antes de chegar ao cinema, a palavra já fazia parte do imaginário popular graças ao conto “Gremlin Lore”, escrito por Dahl, que retratava elfos travessos fictícios responsáveis por falhas misteriosas em aviões da Força Aérea Real Britânica.
Essa história chegou a ser encomendada por Walt Disney, com a intenção de se transformar em uma animação, mas o projeto nunca saiu do papel. Ainda assim, o conceito dos Gremlins como criaturas caóticas e imprevisíveis permaneceu vivo e acabou influenciando diretamente o cinema décadas depois.
Um detalhe curioso está no nome do adorável Mogwai. “Mogwai” significa “demônio” em cantonês, criando um contraste proposital entre a aparência fofa do personagem e o potencial destrutivo que ele carrega, um dos conceitos centrais de Gremlins (1984).
A inspiração criativa de Chris Columbus, roteirista do filme, veio de uma experiência pessoal bastante mundana. Morando em Manhattan, ele descreveu o contraste entre o dia e a noite no apartamento: “Durante o dia, era bastante agradável, mas à noite, o que parecia um pelotão de ratos saía, e ouvi-los correndo na escuridão era realmente assustador.”
Esse incômodo noturno serviu como ponto de partida para a criação das criaturas, transformando sons urbanos e situações cotidianas em um conceito de terror cômico que se tornaria um dos maiores clássicos dos anos 80.
Gremlins, Indiana Jones e a criação da classificação PG-13

Gremlins (1984) e Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984) desempenharam um papel decisivo na criação da classificação indicativa PG-13, um marco na história do cinema norte-americano. Na época, críticos, pais e até a própria indústria consideravam que ambos os filmes eram violentos demais para a classificação PG, tradicionalmente associada a produções familiares, mas não extremos o suficiente para receber um R, voltado exclusivamente para adultos.
Essa zona cinzenta expôs uma falha no sistema de classificação da MPAA (Motion Picture Association of America), que não possuía uma categoria intermediária capaz de sinalizar conteúdos mais intensos, porém ainda acessíveis ao público adolescente. Como resposta direta à polêmica gerada por essas produções, a MPAA criou a classificação PG-13, indicando filmes recomendados para maiores de 13 anos, especialmente quando envolvem violência moderada, tensão psicológica ou temas mais sombrios.
Curiosamente, embora Gremlins e Indiana Jones e o Templo da Perdição tenham sido os principais responsáveis pela mudança, o primeiro filme oficialmente lançado nos cinemas com a classificação PG-13 foi Amanhecer Violento (Red Dawn, 1984). Desde então, a classificação PG-13 se tornou uma das mais utilizadas em Hollywood, influenciando diretamente o tom de grandes produções e redefinindo a forma como o cinema equilibra entretenimento, violência e alcance de público.
Warner Bros. e a parceria entre Spielberg e Chris Columbus

No início da produção de Gremlins (1984), a Warner Bros. não demonstrava grande confiança no potencial comercial do projeto. O estúdio aceitou viabilizar o filme principalmente como uma forma de fortalecer seu relacionamento com Steven Spielberg, que já despontava como um dos nomes mais influentes de Hollywood.
Essa decisão acabou sendo estratégica. Durante as filmagens, Steven Spielberg desenvolveu uma excelente relação criativa com o roteirista Chris Columbus, responsável pela história original do longa. A sintonia entre os dois foi tão bem-sucedida que a parceria se estendeu para outros projetos importantes da década.
O resultado dessa colaboração rendeu dois grandes sucessos dos anos 80: Os Goonies (1985), clássico absoluto do cinema de aventura juvenil, e O Enigma da Pirâmide (1985), produção que reinventou o personagem de Sherlock Holmes para uma nova geração.
A história mais famosa de Kate quase pertencia a outro personagem

A famosa história contada por Kate sobre a morte do pai no Natal não foi originalmente escrita para ela. Segundo o diretor Joe Dante, no roteiro inicial, quem contaria aquela história seria um homem dono de uma lanchonete. Quando essa parte do roteiro foi retirada, Dante decidiu transferir o monólogo para Kate, porque sentia que a personagem precisava de algo que revelasse melhor sua personalidade.
A escolha acabou sendo uma das melhores decisões do filme. Phoebe Cates interpreta o relato de maneira quase casual, enquanto a situação descrita é absurdamente trágica: seu pai morreu preso na chaminé enquanto tentava entrar em casa vestido de Papai Noel. O contraste entre o tom da conversa e o conteúdo da história resume muito bem o equilíbrio entre humor negro e terror que tornou Gremlins tão peculiar.
Curiosamente, o produtor executivo Steven Spielberg não gostou da cena, mas, apesar de seu controle criativo, considerava o filme um projeto de Dante e permitiu que ele a mantivesse.
Gremlins e seu impacto nas bilheterias de 1984

Lançado em 1984, Gremlins rapidamente se consolidou como um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema dos anos 80. Estrelado por Zach Galligan e Phoebe Cates, o filme combinou terror, comédia e fantasia de forma inédita, conquistando público e crítica.
Com um orçamento estimado em US$ 11 milhões, Gremlins alcançou uma arrecadação mundial de US$ 159,7 milhões, garantindo a 4ª posição entre os filmes mais lucrativos de 1984. O desempenho comercial confirmou o longa como um verdadeiro blockbuster, especialmente considerando que se tratava de uma história original, sem franquia prévia. No ranking das maiores bilheterias daquele ano, Gremlins ficou atrás apenas de:
- Um Tira da Pesada
- Caça-Fantasmas
- Indiana Jones e o Templo da Perdição
Ao mesmo tempo, o filme superou outros grandes sucessos da época, como Karatê Kid: A Hora da Verdade e Loucademia de Polícia, reforçando seu lugar entre os títulos mais marcantes da década.
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Fonte: IMDB

