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O Artista – Review

Posted on fevereiro 10, 2012

Simplesmente irresistível

O Artista não tem cor, diálogos ou grandes pretensões. Mas é simples e espirituoso – qualidades que, por incrível que pareça, andam em falta no cinema

O ano é 1927. Uma sala de cinema, preenchida por um público devidamente satisfeito, exibe um filme que causa as mais diversas reações na plateia. Por trás da tela de projeção, os principais artistas do elenco aguardam, junto com o diretor, o decreto final do público. E, embora o real espectador não possa ouvir, os aplausos são calorosos e tranquilizantes. Sobretudo, para o astro George Valentin (Jean Dujardin), o maior ícone do cinema mudo.

Quando já do lado de fora, no tapete vermelho, ele é surpreendido por uma desastrada figurante chamada Peppy Miller (Bérénice Bejo), que almeja uma carreira nas telonas. No dia seguinte, os dois estampam a capa do jornal – ela dando uma beijoca na bochecha dele, uma grande brincadeira que se revela o começo de um amor absoluto, mas em constante desencontro – abaixo da pergunta: Quem é essa garota?

Uma questão que, de fato, não demora muito a ser respondida, já que a simples figurante vai se tornar uma estrela com ajuda do ator. Mas o que George não sabe é que novos tempos estão chegando para a indústria cinematográfica e, pelo que parece, não há mais mercado para o mutismo – nem para ele, que, por causa de um detalhe revelado apenas no minuto final, não serve para o trabalho sonoro.

Este é o pontapé inicial de O Artista (The Artist, 2011), que estreia nesta sexta-feira no país, uma homenagem ao cinema mudo dos anos 20. Nela, o diretor francês Michel Hazanavicius, que também assina o roteiro, acentua a involução da mudez – substituída por películas faladas e, em menor escala, cantadas – através do declínio de George, que não só perde a carreira, mas também a vontade de viver.

Um dos objetivos do diretor é mostrar como aqueles que não acompanham o processo da mudança são, impetuosamente, deixados para trás. Seu protagonista é emperrado pelo orgulho: não aceita nem por decreto de lei que os filmes tenham de ser falados e que, desse modo, as emoções dos personagens precisem de uma explicação. Por isso, é aniquilado juntamente com seus ideais.

Quem ajuda nesse sobe e desce do personagem é Jean Dujardin. O que o pouco conhecido ator francês economiza nas expressões, tem de sobra em carisma e simpatia. Como verdadeiro astro que é, faz de tudo um pouco – até arrisca um sapateado à la Fred Astaire numa sequência deliciosa – e confere à trama certa disposição. Dujardin, que parece vindo de um clássico do início do século passado, por sinal, está muito bem acompanhado pela bela Bérénice Bejo, uma atriz argentina nada menos que radiante.

Se parece excessivo atribuir tantas virtudes a um filme que mapeia clássicos do cinema, é só observar como tudo se encaixa – a excelente trilha sonora, o elenco de apoio (que inclui nomes como John Goodman e Missi Pyle), o ritmo que não cansa o espectador – para concluir que a obra tem mérito próprio e que Hazanavicius consegue até mesmo ser original dentro da proposta de reviver o clima da época.

Pela repercussão que o longa vem ganhando nos últimos meses, até parece que todos os movimentos foram meticulosamente calculados e que havia uma pretensão por trás do projeto. Mas só parece. Dessa vez, a aparência não engana: é tudo muito simples mesmo. Fator que justifica as dez indicações ao Oscar. Num ano tão anêmico para o cinema como 2011, não é à toa que o grande destaque vá para O Artista – um filme que, de tão singelo, é uma graça.



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