Perversidade inexplicável
No perturbador Precisamos Falar Sobre o Kevin, Tilda Swinton exprime a angústia de uma mãe aterrorizada pelo filho de modo espetacular
Kevin é um garoto que, desde muito cedo, aparenta uma frieza intimidante. Principalmente com sua mãe Eva (Tilda Swinton), a qual não demonstra qualquer tipo de afeto ou apreço. Com o passar dos anos, torna-se um jovem perverso, capaz de terríveis atrocidades e disposto arruinar a vida de Eva.
Adaptado de um dos livros mais perturbadores – e igualmente brilhante – dos últimos anos, Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011), que estreia nesta sexta-feira no país, vai contar – de maneira não cronológica – a história de uma mãe aterrorizada e calada, que mais tarde isola-se pela culpa que carrega.
A primeira vez que o espectador tem contato com a personagem, Eva mora sozinha numa casa simples e mal acaba do subúrbio. Já em flashbacks, aparenta uma modesta felicidade acompanhada do marido (John C. Reilly) e dos dois filhos – além do garoto, é mãe de uma menina caçula. Mas não demora muito para que Kevin elimine qualquer resquício de sossego da vida de Eva com sua perversidade gradativa.
O estilo de narrativa fraturada consegue tornar mais visível a imensa angústia que a protagonista começa a fomentar cada vez que lembra da atitude devastadora do filho – revelada apenas no desfecho. Por meio dela, o público consegue captar a enorme frustração de Eva, que, embora nunca expresse com palavras, acredita ter falhado em seu papel materno.
Essa história, baseada no livro homônimo da renomada autora Lionel Shriver (que há alguns anos lançou outra obra igualmente perspicaz sobre a importância das escolhas, O Mundo Pós-Aniversário), está diretamente ligada a um sentimento comum ao adolescente: a rebeldia. Rebeldia a troco de muito pouco, por sinal. Mas o que Lionel, como grande escritora, faz – e por isso o sucesso todo do livro – é fugir do lugar comum e das explicações de praxe. No lugar disso, deixa que a culpa seja, por si só, o ponto crucial da história.
Baseada nessa persuasão, a diretora Lynne Ramsay constrói um filme de poucos diálogos e vários simbolismos. A moral da trama é tão tórrida que qualquer justificativa pareceria excessiva dentro da obra, que deixa suas respostas implícitas e, dessa forma, aumenta a discussão em torno da temática.
A única coisa que os pais, aqui, nunca fazem é falar sobre o Kevin. Pelo contrário: Eva, sabendo que existe algo de errado com o filho, acusa, enquanto o pai somente defende. O que não gera nenhum culpa ou falha paternal, mas alavanca um motivo para que nenhuma solução seja encontrada.
Precisamos Falar Sobre o Kevin ainda conta com uma brilhante sequência final e ma boa interpretação do jovem Ezra Miller, que dá vida ao personagem na adolescência. Seu maior triunfo, porém, é a escalação da inglesa Tilda Swinton. Sua atuação é tão controlada e, ao mesmo tempo, tão extraordinária que nenhum detalhe do sofrimento da protagonista passa despercebido. Num ano mediano de atuações femininas, como foi 2011, é inaceitável que a Academia tenha cometido o erro de deixá-la de fora entre as indicadas ao Oscar.











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